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Anatomia da Conversa #3 — o processo avançou, a conversa não

Foto do escritor: Fabrício Delmondes
Fabrício Delmondes
23 de out.
2 min de leitura

Anatomia da Conversa #3


A primeira mensagem foi boa. E foi logo depois dela que a venda começou a se perder.


Veja esta sequência, montada a partir de conversas que analiso com frequência:


— Oi Marcelo, tudo bem? Acompanhando nossas interações no LinkedIn, vi que você está ajustando seu processo comercial. Eu trabalho com estruturação de prospecção B2B. Faz sentido conversarmos sobre isso neste momento?


— Bom dia. Como funciona?


— A gente mapeia o processo atual, revisa as mensagens que o time manda e monta a cadência. Quer que eu te mande uma proposta?


— Pode mandar. Qual o valor?


— R$ 38 mil.


— Está caro.


A primeira mensagem tinha contexto, um sinal relevante e um motivo para iniciar a conversa.


O comprador respondeu.


Até aí, tudo bem.


Mas repare no que aconteceu depois.


Marcelo perguntou como funcionava o trabalho. O vendedor explicou rapidamente as atividades e já ofereceu uma proposta.


Em poucas mensagens, saiu de uma primeira aproximação para um preço fechado.


E o que ele descobriu sobre o comprador nesse caminho?


Praticamente nada.


Não sabemos o que Marcelo está ajustando no processo comercial, por que decidiu fazer isso agora, quais dificuldades enfrenta ou o que espera alcançar.


A negociação avançou no processo, mas quase nada avançou no entendimento do comprador.


Há mais de 20 anos adoto um princípio nas equipes comerciais que conduzo: não apresentar proposta nem preço fechado antes de compreender a necessidade e apresentar a solução ao cliente.


E existe uma razão para isso.


Antes de propor, precisamos entender o problema, avaliar o contexto e construir com o comprador uma compreensão do que faz sentido resolver.


Isso não significa fugir da pergunta sobre preço.


Se o comprador precisa de uma referência financeira naquele momento, podemos trabalhar com uma faixa, deixando claro que o valor definitivo depende do escopo.


Por exemplo:


— Marcelo, projetos desse tipo costumam ficar entre R$ 35 mil e R$ 45 mil, dependendo do que precisa ser estruturado. Mas ainda não conheço suficientemente sua operação para definir uma proposta. O que vocês estão buscando ajustar neste momento?


A diferença não é apenas trocar R$ 38 mil por uma faixa.


É reconhecer o que ainda não sabemos e usar a conversa para descobrir, antes de definir a solução.


Quando Marcelo perguntou "Como funciona?", havia uma oportunidade de explicar o trabalho e compreender seu interesse.


O vendedor explicou. Mas não procurou entender o motivo da pergunta.


O "Está caro" pode ter várias explicações. Não temos informações suficientes para concluir qual delas se aplica.


Mas sabemos que o preço chegou antes de existir uma compreensão compartilhada sobre o trabalho a ser feito.


Uma proposta enviada não significa, necessariamente, uma negociação mais próxima de acontecer.


Às vezes, significa apenas que o vendedor conseguiu enviar uma proposta.


Antes de considerar que uma conversa avançou, vale perguntar:


O que passamos a saber sobre o comprador depois dessa interação?


Se a resposta for "nada", talvez o processo tenha avançado mais do que a conversa.


 
 
 

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